Achados otoneurológicos em pacientes com diagnóstico de alça vascular de VIII par craniano na ressonância magnética



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Artigo Original



Achados otoneurológicos em pacientes com diagnóstico de alça vascular

de VIII par craniano na ressonância magnética

Neurotology findings in patients with diagnosis of vascular loop of cranial nerves VIII in

magnetic resonance imaging

Francisco Luiz Busato Grocoske

1

, Rita de Cássia C. G. Mendes

2

, Ronaldo Vosguerau

3

, Marcos Mocellin

4

,

Maria Theresa Costa Ramos de Oliveira

3

, Heloisa Nardi Koerner

3

.

1) Médico (a).Residente do 3º ano do Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná.

2) Médica Otorrinolaringologista. Médica Responsável do Ambulatório de Otoneurologia do Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital de Clínicas da Universidade Federal

do Paraná.

3) Médico Radiologista.Médico do DAPI - Diagnostico Avancado por Imagem - Curitiba - PR.

4) Doutor Em Otorrinolaringologia. Professor Titular do Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná.

Instituição:

Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná.

Curitiba / PR - Brasil.

Endereço para correspondência: Francisco L. B. Grocoske - Rua Prof. Pedro V. P. de Souza, 1541 - Apto. 221 - Curitiba / PR - Brasil - CEP: 81200-100 - Telefax: (+55

41) 3373-1952 - E-mail: francisco.grocoske@terra.com.br

Artigo recebido em 15 de Março de 2011. Artigo aprovado em 14 de Agosto de 2011.

S

UMMARY


Introduction: The vascular compression by redundant vessels

under the VIII cranial nerves has been studied since the 80’s,

and many authors proposed correlations between the

compression and the otoneurological findings (vertigo, tinnitus,

hypoacusis, audiometry and electrophysiological findings).

Objective: Analyze and correlate the different signs and

otoneurological symptoms, the audiological findings and its

incidence over individuals with Vascular Loop (VL) diagnosis

of VIII cranial nerves by magnetic resonance imaging (MRI).

Method: Retrospective study through the analysis of medical

records of 47 patients attended in the otoneurology clinic of

Clinical Hospital of UFPR. All the patients have MRI exams

with compatible pictures of VL of the VIII cranial nerves.

Results: The tinnitus was the most frequent symptom, in 83%

of the patients, followed by hypoacusis (60%) and vertigo (36%).

The audiometry presented alterations in 89%, the brainstem

evoked auditory potential in 33% and the vecto-

electronystagmography in 17% of the patients. Was not found

statistically significant relation between the buzz or hypoacusis,

and the presence of VL in MRI. Only 36% of patients had

complaints of vertigo, the main symptom described in theory

of vascular compression of the VIII pair of nerve. As in the

audiometry and in brainstem evoked auditory potential was

not found a statistically significant relation between the exam

and the presence of the VL in the RMI.

Conclusion: The results show independence between the

findings of the RMI, clinical picture and audiological results

(p>0,05) suggesting that there are no exclusive and direct relation

between the diagnosis of vascular loop in the MRI and the

clinical picture matching.

Keywords: vestibulocochlear nerve, tinnitus, hearing loss,

audiometry, MRI (magnetic resonance imaging).

R

ESUMO


Introdução: A compressão vascular por vasos redundantes

sobre o VIII par craniano vem sendo estudada desde a déca-

da de 80, e diversos autores propuseram correlações entre a

compressão e os achados otoneurológicos (vertigem, zumbi-

do, hipoacusia, audiometria e achados eletrofisiológicos).

Objetivo: Analisar e correlacionar os diferentes sinais e sin-

tomas otoneurológicos, os achados audiológicos e sua inci-

dência em indivíduos com diagnóstico de alça vascular (AV)

de VIII par craniano por Ressonância Magnética (RM).

Método: Estudo retrospectivo através da análise de prontuá-

rios de 47 pacientes atendidos no ambulatório de Otoneurologia

do Hospital de Clínicas da UFPR. Todos os pacientes possu-

íam exames de RM com imagens compatíveis com AV de VIII

par craniano.

Resultados: O zumbido foi o sintoma mais frequente, em 83%

dos pacientes, seguido de hipoacusia (60%) e vertigem (36%).

A audiometria apresentava alterações em 89%, o PEATE em

33% e o VENG em 17% dos pacientes. Não foi encontrada

relação estatisticamente significante entre o zumbido ou a

hipoacusia e a presença de AV na RM. Somente 36% dos

pacientes tinham queixas de vertigem, o principal sintoma

descrito na teoria da compressão vascular do VIII par. Tanto

na Audiometria quanto no PEATE não foi encontrada relação

estatisticamente significante entre o exame e a presença de AV

na RM.

Conclusão: Os resultados mostram independência entre os



achados da RM, quadro clínico e resultados audiológicos

(p>0,05) sugerindo que não exista relação direta e exclusiva

entre o diagnóstico de alça vascular na RM e o quadro clínico

otoneurológico correspondente.

Palavras-chave: nervo vestibulococlear, zumbido, perda

auditiva, audiometria, imagem por ressonância magnética.

Arq. Int. Otorrinolaringol. / Intl. Arch. Otorhinolaryngol., São Paulo - Brasil, v.15, n.4, p. 418-425, Out/Nov/Dezembro - 2011.


419

I

NTRODUÇÃO



Compressões vasculares por vasos anômalos ou

redundantes sobre nervos cranianos, e o estabelecimento

de uma correlação estatisticamente relevante entre a

compressão e os sintomas neurológicos vêm sendo estu-

dadas por diversos autores desde a década de 30.

A alça vascular causando compressão do 5º nervo

craniano resultando em neuralgia do trigêmeo foi sugerida

primeiramente por D

ANDY

 em 1934 (1), e mais tarde, por



G

ARDNER


 e M

IKLOS


 (2) em 1959. Este conceito foi então

extensamente ampliado para tentar explicar desordens

de vários nervos cranianos. Estas apresentações são co-

nhecidas como síndromes compressivas, que incluem

espasmo hemifacial, neuralgia glossofaríngea, neuralgia

geniculada, e, mais recentemente, uma síndrome de

compressão do nervo vestíbulo coclear. Embora M

CKENZIE


(3) sugeriu em 1936 que a Doença de Ménière poderia

ser causada por uma relação anormal da artéria cerebelar

anterior inferior (AICA em inglês) e o 8º nervo craniano,

este conceito não foi reintroduzido até 1975, quando

J

ANETTA


 (4) propôs então que alças arteriais redundantes

no ângulo ponto cerebelar (APC) poderiam interferir com

o oitavo par craniano resultando em sintomas de vertigem

grave, zumbido e perda auditiva sensório neural.

Todas as teorias fisiopatológicas baseiam-se em

um tema comum: um vaso redundante aderindo a um

nervo craniano causando excitação crônica ectópica.

Isto resulta em uma reorganização do núcleo nervoso

causando hiperfunção nervosa. Foi sugerido que este

processo patológico seria restrito à zona de entrada da

raiz do nervo craniano, como esta sendo a área juncional

entre a mielina central e a periférica, onde defeitos

poderiam ocorrer. L

ANG


 mostrou que o segmento central

do 8º par craniano tem um comprimento de 10 mm (6

a 15 mm) e um comprimento intracisternal de 15 mm

(8.5 a 22 mm). Ele achou a zona de transição do oitavo

nervo craniano variando do tronco cerebral ao fundo do

Conduto Auditivo Interno (CAI). A histologia conhecida

seria compatível com a ocorrência de uma síndrome de

compressão neurovascular do oitavo nervo craniano, em

qualquer lugar do trajeto, desde o tronco cerebral até o

CAI.


A existência das Síndromes de compressão vascular

(SCV), e especialmente aqui a compressão do VIII par, foi

inicialmente inferida por analogia à síndrome do espasmo

hemifacial, na qual é bem aceito que a causa é um vaso

aberrante comprimindo o nervo. J

ANNETTA


 e M

OLLER


 (5), de

Pittsburgh, EUA, foram os pioneiros no diagnóstico e

tratamento desta enfermidade. Porém nas outras síndromes

de compressão vascular propostas pelos mesmos autores

(neuralgia trigeminal, glossofaríngea, etc.) não foram tão

relacionadas e aceitas como consequência da compressão

vascular.

Os mesmos autores, em 1984, descreveram então

uma SCV relacionada ao 8º par, chamada então de

vertigem posicional incapacitante (“disabling positional

vertigo”), caracterizada por história de: vertigem, geral-

mente em crises de duração curta (2-3min); hipoacusia,

de grau leve a moderado, tipicamente com um entalhe

em frequências medias na audiometria e uma latência

entre ondas I-III aumentada no potencial evocado auditi-

vo de tronco encefálico (PEATE).

A denominação “vertigem posicional” parece ser

inapropriada, já que autores subsequentes não enfatizaram

este achado, como foi no caso de nosso estudo, como

veremos na discussão.

J

ANETTA


 e cols. propuseram como tratamento à

colocação de material absorvível entre o vaso e o nervo.

Embora o objetivo fosse separar o efeito do vaso sobre o

nervo, outros autores (6,7) questionaram se este proce-

dimento simplesmente danificaria a estrutura do VIII par,

ou ainda seria totalmente infundada. Outros (8) sugeriram

a completa secção do nervo como tratamento. Há tam-

bém propostas de tratamento clínico, com uso de

carbamazepina, com bons resultados.

Assim, apesar nos inúmeros artigos publicados

desta condição, a simples existência das SCV continua a

ser questionada. Os sintomas da SCV são todos inespecíficos,

podendo ser facilmente encontrados em outras condições

como doença de Ménière, enxaqueca ou simplesmente

uma intolerância inata ao movimento. Não há ainda um

teste específico convincente. Os achados de PEATE

propostos por Moller (9) como característicos de SCV não

seriam considerados por muitos autores, como S

CHWABER

e H


ALL

 (6,7). Ainda, segundo P

ARNES

 (10), nenhum achado



de tomografia axial computadorizada (TAC) ou ressonân-

cia magnética (RM) relacionado com vasos sanguíneos

seria diagnóstico, já que vasos cruzando o VII par são

encontrados em ao menos 1/3 de indivíduos

assintomáticos.

A variabilidade da anatomia vascular do APC e

do canal auditivo interno (CAI) em pessoas normais

contribuiu para com a controvérsia em torno do con-

ceito das síndromes de compressão vascular. Tanto

estudos post-mortem como radiológicos investigaram

o local da alça vascular formada pela AICA no APC

(12,13,14). Os resultados mostraram discrepâncias

consideráveis, embora todos os estudos indicassem

que alças vasculares entrariam no CAI em uma minoria

dos pacientes.

Achados otoneurológicos em pacientes com diagnóstico de alça vascular de VIII par craniano na ressonância magnética.

Grocoske et al.

Arq. Int. Otorrinolaringol. / Intl. Arch. Otorhinolaryngol., São Paulo - Brasil, v.15, n.4, p. 418-425, Out/Nov/Dezembro - 2011.



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Em essência, a SCV do VIII par seria uma síndrome

de sintomas vestibulares (vertigens rápidas, combinadas

com intolerância ao movimento) e audiológicos que res-

pondem ao tratamento com medicações para neuralgia

(carbamazepina) e onde outras causas semelhantes

(Ménière, enxaqueca) tenham sido afastadas.

Logicamente, nenhum dos sintomas desta síndrome

é exclusivo de uma origem vascular, mas as suas caracte-

rísticas mais específicas (sintomas intensos e de curta

duração, que respondem a medicação para neuralgia)

demonstram um problema elétrico, pois qualquer altera-

ção que irrite o nervo vestibular irá causar sintomas seme-

lhantes, como já foi demonstrado na literatura por M

OON

 e

H



AIN

 (11).


Assim, uma denominação mais razoável para esta

síndrome é Paroxismia Vestibular (PV).

Há evidências de que a compressão vascular do

VIII nervo craniano seja a causa mais provável da

paroxismia vestibular (5,12), com hiperatividade e pro-

gressiva perda funcional. Pode ser diagnosticada pela

ocorrência de episódios curtos de tontura rotatória (ver-

tigem), precipitados ou modulados pela mudança da

posição da cabeça, podendo estar associada à hipoacusia

e/ou zumbidos (13).

No diagnóstico da PV, é importante diferenciá-la de

outras síndromes que cursam com vertigem episódica de

curta duração, como VPPB, doença de Ménière e neurite

vestibular. A vertigem da PV desencadeada por movimen-

tos da cabeça não é fatigável como nos pacientes com

VPPB, e seus sintomas não são aliviados com uso de

supressores vestibulares (5). Na PV os pacientes não têm

a perda auditiva flutuante característica da doença de

Menière.

Tanto a Tomografia Axial Computadorizada (TAC)

como a Ressonância Magnética (RNM) com achados de alça

vascular ainda não se mostraram específicas como auxílio

diagnóstico, porém novos tipos de RNM, como FT-FISS

podem ser mais específicos. Recentemente, M

C

D

ERMOTT



 et

al. (14), em um estudo extenso, propôs que alças que se

estendem para dentro do CAI são mais significativas como

fonte de sintomas auditivos unilaterais, como zumbido, do

que aquelas acerca do APC. Um PEATE anormal do lado dos

sintomas suporta o diagnóstico, mas um exame normal não

o exclui. Desta forma, o diagnóstico definitivo somente é

conseguido após exploração cirúrgica, com cura no follow-

up. Obviamente, extrema cautela deve ser empregada na

indicação cirúrgica, pois é necessário um acesso

neurocirúrgico ao tronco cerebral, devendo ser considera-

do em último caso em falha de resposta a todas as outras

alternativas clínicas.

O objetido deste artigo é analisar e correlacionar os

sinais e sintomas otoneurológicos, os achados audiológicos

e sua incidência em indivíduos com alça vascular (AV) de

VII/VIII par demonstrado por imagens de ressonância

nuclear magnética de ângulo ponto cerebelar.

M

ÉTODO


Foram analisados 47 pacientes atendidos no ambu-

latório de Otoneurologia do Hospital de Clínicas da Univer-

sidade Federal do Paraná, no período de Junho de 2009 a

Maio de 2010.

Todos os pacientes tinham uma ou mais queixas

otoneurológicas de perda de audição, vertigem e zumbido.

Foram submetidos aos seguintes exames complementa-

res: Audiometria, Vectoeletronistagmografia e PEATE, e

todos possuíam exames de Ressonância Magnética com

imagens compatíveis com Alça Vascular de VIII par craniano

(Figura 1). Neste exame usamos a classificação proposta

por M


C

D

ERMOTT



 et al. (14) em relação ao local da alça no

trajeto do nervo:

Grau I: Alça vascular totalmente fora do Conduto

Auditivo Interno

Grau II: Alça vascular insinuando-se em até 50% no

Conduto Auditivo Interno

Grau III: Alça vascular insinuando-se mais de 50% no

Conduto Auditivo Interno

Procedeu-se ao tratamento estatístico julgado ade-

quado de acordo com a natureza dos dados coletados, que

consistiu na elaboração de tabelas e gráficos para o estudo

Figura 1.

 Alça Vascular de VIII par craniano.

Achados otoneurológicos em pacientes com diagnóstico de alça vascular de VIII par craniano na ressonância magnética.

Grocoske et al.

Arq. Int. Otorrinolaringol. / Intl. Arch. Otorhinolaryngol., São Paulo - Brasil, v.15, n.4, p. 418-425, Out/Nov/Dezembro - 2011.



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de frequências das variáveis isoladamente, bem como

tabelas de dupla entrada para distribuição e análise estatís-

tica da variável “alça vascular” por “zumbido”, “hipoacusia”,

“audiometria” e “peate”. Na análise estatística foram utili-

zados os testes de qui-quadrado e Fisher, levando-se em

conta as frequências esperadas, com nível de significância

p<0,05.


Este trabalho foi aprovado pelo comitê de ética do

HC/UFPR sob o numero 2248.142/2010-06.

Tabela 1.

 Distribuição da amostra por sexo.

Sexo

N

%



Masculino

24

51,1%



Feminino

23

48,9%



Total

47

100%



Tabela 2.

 Distribuição do sintoma de zumbido.

Lado

N

%



Ouvido Direito

6

12,8%



Ouvido Esquerdo

14

29,8%



Bilateral

19

40,4%



Sem Zumbido

8

17,0%



Total

47

100%



Tabela 3.

 Distribuição do sintoma de hipoacusia.

Lado

N

%



Ouvido Direito

10

21,3%



Ouvido Esquerdo

5

10,6%



Bilateral

13

27,7%



Sem Hipoacusia

19

40,4%



Total

47

100%



Tabela 4.

 Distribuição do sintoma de vertigem.

Vertigem

N

%



Com Vertigem

17

36,2%



Sem Vertigem

30

63,8%



Total

47

100%



Tabela 5.

 Distribuição da amostra em relação a audiometria.

Lado Alterado

N

%



Ouvido Direito

7

14,9%



Ouvido Esquerdo

6

12,8%



Bilateral

29

61,7%



Audiometria Normal

5

10,6%



Total

47

100%



Tabela 6.

 Distribuição da amostra em relação ao Peate.

Lado Alterado

N

%



Ouvido Direito

3

6,4%



Ouvido Esquerdo

5

10,6%



Bilateral

8

17,0%



Peate Normal

31

66,0%



Total

47

100%



Tabela 7. 

Distribuição da amostra em relação ao Veng.

Tipo De Alteração

N

%



Deficitária

3

6,4%



Irritativa

5

10,6%



Veng Normal

39

83,0%



Total

47

100%



Tabela 8.

 Distribuição da amostra em relação ao lado afetado

na RMn.

Lado


N

%

Ouvido Direito



13

27,7%


Ouvido Esquerdo

9

19,1%



Bilateral

25

53,2%



Total

47

100%



R

ESULTADOS

Conforme a Tabela 1, os pacientes tinham idade

média de 56,1 anos, variando entre 23 e 78 anos, distribu-

ídos equilibradamente entre os sexos.

O Gráfico 1 e as Tabelas 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9

apresentam as frequências dos sintomas otneurologicos e

exames alterados dos pacientes do estudo.

Gráfico 1. 

Distribuição dos sintoma.

Achados otoneurológicos em pacientes com diagnóstico de alça vascular de VIII par craniano na ressonância magnética.

Grocoske et al.

Arq. Int. Otorrinolaringol. / Intl. Arch. Otorhinolaryngol., São Paulo - Brasil, v.15, n.4, p. 418-425, Out/Nov/Dezembro - 2011.

Sintomas


Zumbido

Ouvido


Direito

Ouvido


Direito

Ouvido


Esquerdo

Ouvido


Esquerdo

Bilateral

Bilateral

Vertigem


Hipoacusia

36%


60%

83%


0,9

0,8


0,7

0,6


0,5

0,4


0,3

0,2


0,1

0


422

Vimos que, em relação aos sintomas otoneurológicos,

o zumbido foi o mais frequente, sendo presente em 39

(83%) dos pacientes, seguido de hipoacusia, em 28 (59,6%)

e vertigem, em 17 (36,2%) dos pacientes.

O zumbido foi presente em 39 (83%) dos pacientes,

mais comum bilateralmente. Oito pacientes (17%) não

tinham queixa de zumbido.

A hipoacusia foi um sintoma presente em 28 (59,6%)

pacientes, com os restantes 19 (40,4%) sem esta queixa.

A vertigem foi presente em 17 (36,2%) dos pacien-

tes, com 30 (63,8%) sem esta queixa.

Tabela 9.

 Distribuição da amostra em relação ao tipo da alça

vascular.

Tipo da Alça Vascular

N

%

Tipo I



15

31,9%


Tipo II

17

36,2%



Tipo III

6

12,8%



Não Classificado

9

19,1%



Total

47

100%



A audiometria apresentava alterações em 89,4% dos

pacientes, sendo mais frequentes as perdas bilaterais.

Cinco pacientes (10,6%) tinham audiometria normal.

Trinta e um pacientes (66%) tinham PEATE normal,

enquanto que 16 (33%) tinham este exame alterado.

Dos 47 pacientes do estudo, 8 (17%) apresentavam

VENG alterado.

Todos os pacientes tinham exame de RMN alterada,

com diagnóstico de alça vascular de VIII par craniano. Vinte

e cinco deles (53,2%) eram bilaterais, o restante (46,8%)

era unilateral.

Quanto ao tipo de alça vascular na RM, 9 pacientes

(19,1%) não a tinham classificada, enquanto que 15 (31,9%)

possuíam o tipo I, 17 (36,2%) o tipo II e 16 (12,8%) o tipo III.

Procedemos então ao cruzamento dos dados, anali-

sando os achados de RNM versus os sintomas otoneurológicos

e os resultados dos exames complementares, conforme

apresentamos nos Gráficos 2, 3, 4 e 5 a nas Tabelas 10,11,

12, 13, 14, 15, 16, 17, 18 e 19.

Grafico 2. 

Distribuição do sintoma de zumbido.

Grafico 3. 

Distribuição do sintoma de hipoacusia.

Grafico 4. 

Distribuição dos resultados audiométricos.

Grafico 5.

 Distribuição dos resultados do PEATE.

Achados otoneurológicos em pacientes com diagnóstico de alça vascular de VIII par craniano na ressonância magnética.

Grocoske et al.

Arq. Int. Otorrinolaringol. / Intl. Arch. Otorhinolaryngol., São Paulo - Brasil, v.15, n.4, p. 418-425, Out/Nov/Dezembro - 2011.

25%

20%


15%

10%


5%

0%

Zumb à Dir



Zumb à Esq

Zumb Bilat

Sem Zumb

ALÇA À DIR

ALÇA À ESQ

ALÇA BILAT

25%

20%


15%

10%


5%

0%

Hipoacusia à Dir



Hipoacusia à Esq

Hipoacusia Bilat

Sem Hipoacusia

ALÇA À DIR

ALÇA À ESQ

ALÇA BILAT

40%

35%


30%

25%


20%

15%


10%

5%

0%



ALÇA À DIR

ALÇA À ESQ

ALÇA BILAT

Audio Dir

Audio Esq

Audio Bilat

Audio Normal

40%


35%

30%


25%

20%


15%

10%


5%

0%

ALÇA À DIR



ALÇA À ESQ

ALÇA BILAT

PEATE Dir

PEATE Esq

PEATE Bilat

PEATE Normal



423

Tabela 10.

 Distribuição da alça por zumbido em 47 pacientes.

Zumbido / Ouvido

Sem

%

Total



%

Alça


Direito

%

Esquerdo



%

Bilateral

%

Zumb


A Direita

4

8,51



0

0,00


5

10,64


4

8,51


13

27,66


A Esquerda

1

2,13



5

10,64


3

6,38


0

0,00


9

19,15


Bilateral

1

2,13



9

19,15


11

23,40


4

8,51


25

53,19


Total

6

12,77



14

29,79


19

40,43


8

17,02


47

100,00


Tabela 13.

 Distribuição da alça por hipoacusia em 47 pacientes.

Hipoacusia

                         Ouvido

Sem

%

Total



%

Alça


Direito

%

Esquerdo



%

Bilateral

%

A Direita



5

10,64


0

0,00


3

6,38


5

10,64


13

27,66


A Esquerda

1

2,13



1

2,13


1

2,13


6

12,76


9

19,15


Bilateral

4

8,51



4

8,51


9

19,15


8

17,02


25

53,19


Total

10

21,28



5

10,64


13

27,66


19

40,42


47

100,00


Tabela 11.

 Análise estatística da frequência da alça por lado

percebido do zumbido em 39 pacientes.

Zumbido


                  Ouvido

Total


P

Alça


Direito ou

Bilateral

Esquerdo

Direita ou Esquerda

10

8

18



0,62

Bilateral

10

11

21



Total

20

19



39

Tabela 12. 

Análise estatística da frequência da alça por

presença de zumbido em 47 pacientes.

Zumbido

                   Presença



Total

P

Alça



Sim

Não


Direita Ou Esquerda

18

4



22

0,57


Bilateral

21

4



25

Total


39

8

47



Tabela 16. 

Distribuição da alça por audiometria em 47 pacientes.

Audiometria

                         Ouvido

Sem

%

Total



%

Alça


Direito

%

Esquerdo



%

Bilateral

%

A Direita



4

8,51


0

0,00


7

14,89


2

4,26


13

27,66


A Esquerda

0

0,00



2

4,26


6

12,77


1

2,12


9

19,15


Bilateral

3

6,38



4

8,51


16

34,04


2

4,26


25

53,19


Total

7

14,89



6

12,77


29

61,70


5

10,64


47

100,00


Tabela 17.

 Análise estatística da frequência da alça por

audiometria em 42 pacientes.

Audiometria

                     Ouvido

Total


P

Alça


Direito ou

Bilateral

Esquerdo

Direita ou Esquerda

6

13

19



0,80

Bilateral

7

16

23



Total

13

29



42

Tabela 15. 

Análise estatística da frequência da alça por

presença de hipoacusia em 47 pacientes.

Hipoacusia

                    Presença

Total

P

Alça ou Esquerda



11

11

22



0,34

Bilateral

17

8

25



Total

28

19



47

Tabela 14. 

Análise estatística da frequência da alça por lado

percebido da hipoacusia em 28 pacientes.

Hipoacusia

                Ouvido

Total

P

Alça



Direito ou

Bilateral

Esquerdo

Direita ou Esquerda

7

4

11



0,39

Bilateral

8

9

17



Total

15

13



28

Achados otoneurológicos em pacientes com diagnóstico de alça vascular de VIII par craniano na ressonância magnética.

Grocoske et al.

Arq. Int. Otorrinolaringol. / Intl. Arch. Otorhinolaryngol., São Paulo - Brasil, v.15, n.4, p. 418-425, Out/Nov/Dezembro - 2011.



424

Dos pacientes com queixa de zumbido à direita, 4

(8,51%) possuíam alça vascular correspondente na RM. À

esquerda, 5 pacientes (10,6%) tinham zumbido e alça do

mesmo lado, e dos 19 pacientes com queixa bilateral, 11

(23,4%) tinham imagem na RM de alça vascular bilateral.

Oito pacientes (17%) do estudo não tinham queixa de

zumbido e apresentavam alça vascular na RM. Existe

independência entre a localização da alça vascular e o lado

percebido do zumbido. Também existe independência

entre a localização da alça vascular e a simples presença do

zumbido, independentemente do lado percebido, assim

como do tipo percebido do zumbido, pulsátil ou não.

Relacionando-se a queixa de hipoacusia e lado da

alça, cinco dos treze pacientes com alça vascular à direita

possuíam hipoacusia do mesmo lado, somente um pacien-

te dos nove com alça vascular à esquerda referia hipoacusia

também à esquerda e nove dos vinte e cinco com alça

bilateral também referiam hipoacusia bilateral. Existe inde-

pendência tanto entre a localização da alça vascular e o lado

percebido de hipoacusia como entre a presença da alça

vascular e a sintomatologia de hipoacusia, independente-

mente do lado percebido.

Em relação aos resultados audiométricos, quatro dos

treze pacientes com alça vascular à direita possuíam

audiometria alterada do mesmo lado, dois pacientes dos

nove com alça vascular à esquerda possuíam audiometria

alterada à esquerda e dezesseis dos vinte e cinco com alça

bilateral também possuíam audiometria alterada bilateral-

mente. Existe independência entre a localização da alça

vascular e o lado alterado da audiometria.

Analisando os resultados do PEATE, dois dos treze

pacientes com alça vascular à direita possuíam PEATE

alterado do mesmo lado, somente um paciente dos nove

com alça vascular à esquerda possuía PEATE alterado à

esquerda e cinco dos vinte e cinco com alça bilateral

também possuíam PEATE alterado bilateralmente.

Existe independência entre a localização da alça

vascular e o lado alterado do PEATE.

D

ISCUSSÃO



Observamos Que Nos Sintomas apresentados pe-

los pacientes, tanto em relação ao zumbido quanto a

hipoacusia, não há significância estatística ente o sintoma

e à presença de alça vascular na RNM, seja em relação ao

lado percebido, ou mesmo pela simples presença do

sintoma. No zumbido, mesmo isolando-se somente os

casos do tipo pulsátil, teoricamente o que mais se relaci-

onaria à alça vascular, notamos que a independência se

mantém, não havendo relação direta entre alça e zumbi-

do. Isto também é reforçado pela pequena quantidade de

pacientes do estudo (7, ou 14,8%), com queixa de

zumbido do tipo pulsátil

Estes achados corroboram aqueles de M

AKINS


 (15),

que não viu diferença significativa em relação à presença

de alça vascular, entre orelhas com sinais e sintomas e

orelhas sadias, sugerindo que a presença de alça vascular

na RNM não é patológico, mas um achado de exame.

Esta independência manteve-se na análise dos exa-

mes audiológicos (Audiometria e PEATE), onde a presença

da alça vascular na RNM também não apresentou uma

significância estatística com os dados dos exames

audiológicos. Isto reforça os achados sintomatológicos,

neste caso sem a subjetividade inerente dos sintomas.

Observamos também uma incidência relativamente

baixa de PEATE alterado, em 34% dos pacientes, já que

pela teoria da compressão vascular, esperava-se uma

alteração mais frequente na transmissão do estímulo, re-

presentada por um PEATE alterado.

Também citamos a incidência reduzida do sintoma

da vertigem, (36,2% dos pacientes), já que este foi o

Tabela 18.

 Distribuição da alça por peate em 47 pacientes.

PEATE

                         Ouvido



Sem

%

Total



%

Alça


Direito

%

Esquerdo



%

Bilateral

%

A Direita



2

4,26


1

2,13


1

2,13


9

19,15


13

27,66


A Esquerda

0

0,00



1

2,13


2

4,26


6

12,77


9

19,15


Bilateral

1

2,13



3

6,38


5

10,64


16

34,04


25

53,19


Total

3

6,38



5

10,64


8

17,02


31

65,96


47

100,00


Tabela 19. 

Análise estatística da frequência da alça por Peate

em 16 pacientes.

Audiometria

                     Ouvido

Total


P

Alça


Direito ou

Bilateral

Esquerdo

Direita ou Esquerda

4

3

7



0,50

Bilateral

4

5

9



Total

8

8



16

Achados otoneurológicos em pacientes com diagnóstico de alça vascular de VIII par craniano na ressonância magnética.

Grocoske et al.

Arq. Int. Otorrinolaringol. / Intl. Arch. Otorhinolaryngol., São Paulo - Brasil, v.15, n.4, p. 418-425, Out/Nov/Dezembro - 2011.



425

principal sintoma descrito nos primeiros estudos e na teoria

da compressão vascular do VIII par.

C

ONCLUSÃO



A presença do conflito neurovascular do VII/VIII par

craniano nas imagens de RNM não justificou por si só os

sinais e sintomas otoneurológicos e as alterações

audiovestibulares encontradas nos indivíduos avaliados

neste estudo.

R

EFERÊNCIAS



 B

IBLIOGRÁFICAS

1. Dandy WE. Concerning the cause of trigeminal neuralgia.

Am J Surg. 1934, 24:447-55.

2. Gardner WJ, Miklos MV. Response of trigeminal neuralgia

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trigeminal neuralgia. JAMA. 1959, 170:1773-6.

3. McKenzie KG. Intracranial division of the vestibular portion

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J. 1936, 34(4):369-81.

4. Janetta PJ. Neurovascular cross-compression in patients

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5. Janetta PJ, Moller MB, Moller AR. Disabling positional

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6. Schwaber MK and Hall JW. Cochleovestibular nerve

compression syndrome. I. Clinical features and audiovestibular

findings. Laryngoscope. 1992, 102(9):1020-9.

7. Schwaber MK and  Whetsell WO. Cochleovestibular nerve

compression syndrome. II. Vestibular nerve histopathology

and theory of pathophysiology. Laryngoscope. 1992,

102(9):1030-6.

8. McCabe BF, Harker LA. Vascular loop as a cause of vertigo.

Ann ORL. 1983, 92:542-543.

9. Moller MB. Vascular compression of the eighth cranial

nerve as a cause of vertigo. Keio J Med. 1991, 40(3):146-

150.

10. Parnes LS, Shimotakahara SG, Pelz D, et al. Vascular



relationships of the vestibulocochlear nerve on magnetic

resonance imaging. Am J Otol. 1990, 11:278-281.

11. Moon I, Hain TC Delayed Quick Spins following Vestibular

Nerve Section Respond to Anticonvulsant Medication. Otol

Neurotol. 2005, 26:82-85.

12. Moller MB, Moller AR, Jannetta PJ, Sekhar L. Diagnosis

and surgical treatment of disabling positional vertigo. J

Neurosurg. 1986, 64:21-28.

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nd

 Ed.



London: Springer Verlag, 1999.

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fiction. Clin Otolaryngol. 2003, 28(2):75-80.

15. Makins A, Nikolopoulos TP, Ludman C, O’Donoghue G.

Is there a Correlation Between Vascular Loops and Unilateral

Auditory Symptoms? The Laryngoscope. 1998: 1739-1742.

Achados otoneurológicos em pacientes com diagnóstico de alça vascular de VIII par craniano na ressonância magnética.

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