Escola de teatro jamile da cruz e jesus o trabalho teatral com pessoas com defici



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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

ESCOLA DE TEATRO

JAMILE DA CRUZ E JESUS


O TRABALHO TEATRAL COM PESSOAS COM DEFICIÊNCIA VISUAL A PARTIR DO USO DA MATERIALIDADE NO PROCESSO CRIATIVO

Salvador

2015



UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

ESCOLA DE TEATRO

JAMILE DA CRUZ E JESUS


O TRABALHO TEATRAL COM PESSOAS COM DEFICIÊNCIA VISUAL A PARTIR DO USO DA MATERIALIDADE NO PROCESSO CRIATIVO
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciatura em Teatro.

Orientador: Prof. Ms. Carlos Alberto Ferreira da Silva.


Salvador

2015



A Divindade que sempre esteve me guiando por todos os giros do mundo;

Aos meus pais e irmãos, que confiaram e me apoiaram independentemente do que fosse vir ao meu encontro e ao deles;

Aos meus amigos, que acreditaram e disseram siga em frente e por ser de lá do sertão!

AGRADECIMENTOS
Há tantos para agradecer que me perderei ao longo dessas palavras. Começarei com o que há de mais forte em mim, Deus. Agradeço, primeiramente, a essa DIVINDADE que esteve e está sempre me regendo por todos os caminhos e em todas as minhas buscas e aprendizado.

Agradeço a toda minha família, principalmente os meus pais, que confiaram em mim e acreditaram juntamente comigo em coisas que nem eu sabia explicar. Agradeço por terem tornado tudo isso possível e por me segurarem em minhas mãos todas às vezes que chorei de saudade e quis desistir por querer estar perto deles. Pai, Mãe agradeço por todas ás vezes que me ergueram e acreditaram que tudo iria dar certo.

Agradeço aos meus irmãos, o Neto, por me ver como exemplo e aprender a curtir o que me faz feliz; o Juninho, que com sua graça e poder movimentou minha vida e deu direção aos meus caminhos acadêmicos e pessoais e a Ninho que mesmo distante faz parte de mim.

Agradeço a todos os meus tios, primos, sobrinhos, os meus avôs, as minhas avós e os amigos que juntos construíram esta trajetória comigo. Sei que não estarão todos os nomes aqui, mas sou grata a todos que passaram e me ensinaram alguma coisa. Obrigado!

Agradeço com carinho os amigos de todas as horas e os que estão distantes, mas ao mesmo tempo presente. Agradeço a cada amigo que direta ou indiretamente me deram forças para não desistir. Agradeço, aos amigos de longa temporada, “os antigos”, que continuaram comigo, mas agradeço também aos que ganhei na cidade de Salvador. Vocês foram fundamentais! Agradeço a Daidai, que tanto me ouviu e aconselhou; agradeço a Ci pelo exemplo e referência que é; a Pah pela existência. Agradeço a Ingrid Mirele pelo acolhimento; a Nilson Júnior que me encantou desde o início com sua energia e amizade; a Gui e Leo que chegaram tão bonitos fazendo com que eu me sentisse bem nesse lugar estranho, e ao anjinho da guarda chamado Sid. Agradeço a Lala por ter aparecido exatamente onde apareceu, pelo companheirismo e irmandade de sempre, a Joice pela parceria e generosidade, a Fabi pelas risadas... Agradeço a todos que estiveram comigo dentro daquelas paredes da Escola de Teatro e, ainda mais, os que continuaram fora dela. Agradeço a Noan, que com sua força me ergueu inúmeras vezes. Sou grata a Olivia, a Mary, a Hemile, a Suzana, a Raiane, a Lua Clara, Bruno, Adriele e vários outros... Agradeço a todos aqueles que contribuíram para tudo que sou hoje.

Agradeço a Celida Salume pelo apoio ao meu desejo de pesquisa, pelo carinho e pelas reflexões propostas sobre meu trabalho enquanto estudante de Licenciatura em Teatro, agradeço pelo grupo de pesquisa CELULA, pela Iniciação Científica, pela minha trajetória na Escola.

Agradeço de forma grandiosa e especial ao meu orientador, Carlos Alberto que me suportou e assumiu comigo um processo que não foi fácil. Agradeço a ele pelas sensíveis contribuições, pelas reflexões primorosas, pelas broncas e por pegar em minha mão no momento em que eu quis abandonar tudo. Sou grata a sua “energia duzentos e vinte” que me deram choques de vontades. Parabéns pelo profissional que é e pela pessoa que mantém contigo.

Agradeço a professora Sandra Rosa que aceitou participar desse processo e trouxe contribuições importantes para o meu trabalho.

Agradeço a todos os professores que passaram por mim e deixaram algo de importante. Agradeço aos mestres de Euclides que me criaram e me incentivaram; aos de Salvador e aos professores da vida que encontrei nessa caminhada.

Agradeço especialmente todas as instituições que me receberam e fizeram dessa pesquisa possível. Agradeço aos meus alunos, Claudio, Rute, Val, Cris, Gilson, Ellen, Hebert, Rian e Felipe que me proporcionaram vivenciar um universo que me fez/faz feliz e a Associação Baiana de cegos. Agradeço a Escola de Teatro, a Seu Geraldo, o Val e a todos os funcionários que me proporcionaram a oportunidade de vivenciar a arte de fazer teatro. Hoje estou aqui firme e forte, seguindo, aprendendo e, principalmente, me conhecendo. Sou Grata a esse moinho que é o mundo, um mundo que gira tanto e fico até tonta. Sou grata por ser de lá do Sertão, por pertencer àquele nordeste e àquelas pessoas.



RESUMO
O presente trabalho tem como principal objetivo apresentar às pessoas com deficiência visual diferentes convenções teatrais, além de experimentar a materialidade como princípio para criação. Partindo do pressuposto de que essa Materialidade pode seguir por dois caminhos. Sendo o primeiro, se pensarmos pelo viés da criação enquanto possibilidade de gerar temas e cenas. Já o segundo, é quando essa materialidade entra em fricção com o corpo provocando novos movimentos e ações. Outra finalidade da pesquisa é refletir sobre o trabalho teatral com essas pessoas, além de fazer uma breve trajetória histórica da pessoa com deficiência, contextualizando os ambientes onde esses alunos estiveram durante a oficina. Trata-se de uma pesquisa com a proposta de dialogar sobre a situação desse sujeito com a sociedade e abordar possíveis métodos para o trabalho teatral com alunos cegos e de baixa visão entre 16 e 59 anos, na Associação Baiana de Cegos em 2014, para além de montagens teatrais.

Palavras-chave: Pessoas com deficiência Visual, Materialidade e Teatro.

LISTA DE FIGURAS
FIGURA I – Foto do calçamento/calçada no bairro Barris - um trajeto de menos de um quilômetro, interligando a Associação Baiana de Cegos à Estação da Lapa e às outras ruas da região- Arquivo disponibilizado pelo site da Associação Baiana de Cegos........................................................................................................................... 26

FIGURA II – No palco Cristina na cozinha e ao lado dela Gilson e dois atores jogando dominó na sala - Arquivo pessoal............................................................................... 36

FIGURA III – Foto do processo criativo durante um dos jogos de integração - Arquivo Pessoal......................................................................................................................... 45

FIGURA IV – Foto de um dos momentos de avaliação - Arquivo pessoal............... 46

FIGURA V - Ensaio de umas das cenas da mostra na sala da ABC - Arquivo pessoal.................................................................................................................. ........57

SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO................................................................................................................9

2. CONTEXTUALIZANDO: DOS ASPECTOS HISTÓRICOS Á ABC..........................13

    1. BREVE TRAJETÓRIA HISTÓRICA DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA.....................13

2.2 CONTEXTUALIZANDO A ASSOCIAÇÃO BAIANA DE CEGOS- ABC....................20

2.3 DISCUTINDO SOBRE ACESSIBILIDADE...................................................................24



3. MATERIALIDADE: COMO PRINCÍPIO NO PERCURSO CRIATIVO .................29

3.1 O QUE É MATERIALIDADE?.........................................................................................29

3.2 MATERIALIDADES EM MINHA PRÁTICA PEDAGÓGICA EM DIÁLOGO COM OUTROS AUTORES..............................................................................................................33

4. UMA EXPERIÊNCIA PRÁTICA: DO FAZER TEATRAL AO EXPERIMENTO COM O DEFICIENTE VISUAL...........................................................................................42

4.1 A EXPERIÊNCIA – PRIMEIRO CONTADO ..................................................................44

4.2 PRODUÇÃO TEATRAL SEGUNDO CONTATO...........................................................50

4.3 DA RELAÇÃO Á APRESENTAÇÃO – TERCEIRO CONTATO...................................55

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS.............................................................................................60

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..................................................................................63

ANEXOS..................................................................................................................................64



  1. INTRODUÇÃO

Inicio essa escrita amedrontada nesse espaço que de maneira alguma está sendo confortável. Então, do que tenho medo? Pergunto. Tenho medo das críticas, medo de sentir angústia e incapacidade de produzir e escrever. Medo do que sinto, do lugar que me coloco enquanto alvo, de minha incompreensão diante desse ambiente onde não posso me manter anônima aos julgamentos, análises e censuras. Depois de ser incentivada com discursos estimulantes, por aqueles que já estiveram nesse lugar receoso em que me encontro, sobre a necessidade de deixar que a escrita flua sem pudores e inflexibilidade. Hoje, primeiro de abril de 2015, me coloco diante do computador e provoco o meu pensamento para iniciar uma escrita diferenciada. Para isso, torna-se necessário reencontrar a excitação, a felicidade e o desejo na pesquisa que estou propondo no Trabalho de Conclusão de Curso – TCC.

Partindo desse lugar, de um sujeito que se põe a escrever, mesmo com suas dificuldades, penso em todas as aquisições que adquiri durante a graduação, e uma coisa é certa: não foi fácil. Recordo-me quando apresentei, mesmo que incipientes, propostas para o TCC, me deparei com discursos desanimadores, pois alguns professores achavam que seria difícil articular o desejo de trabalhar o tema de pessoas com deficiência no âmbito da arte educação, visto que haviam algumas lacunas, como a falta de bibliografia, de experiência por parte de docentes e discentes e, com isso, a possibilidade de não encontrar um professor que pudesse me orientar. Em função desses inúmeros fatores, inicialmente, via-me na iminência de não realizar a trajetória acadêmica que idealizei, pensar o teatro e a deficiência visual.

Lembro o quanto foi difícil deparar-me com várias portas fechadas, no período em que procurava por um estágio, por alunos, que, de alguma maneira, acreditassem e aceitassem experimentar as propostas que idealizei, ao longo de todo o curso. Mas, após passar por experiências, que considero importantes para esse processo de escrita, como a Iniciação Científica, os estágios docentes, o encontro com o Grupo Teatral Noz Cego e a Associação Baiana de Cegos, ainda com medo, hoje, escrevo depois de duas experiências práticas com deficientes visuais, sendo elas, o estágio e o processo de oficina do Cidade Cega, de Carlos Alberto Ferreira, com dois orientadores que apoiaram esse mergulho e, além dos teóricos que dialogam com temáticas, sobre as quais estou escrevendo. É deste lugar que buscarei criar e desvendar minha escrita, livre e sem amarras. Escreverei e depois, se necessário for, eu modifico.

Depois do receio de iniciar, de colocar as primeiras palavras, inicio e escrevo, mas apresentarei antes o desejo de minha escrita, aquilo a que me propus durante o meu estágio, pesquisar, descobrir um pouco sobre o ensino de artes para/com deficientes visuais. Esta inquietação tem um motivo: o meu irmão. Ao longo dos últimos quinze anos em que venho acompanhando ele, percebo o quão difícil é viver em um mundo não adaptado. Desta forma, quando iniciei o curso de Licenciatura em Teatro, esse desejo pela arte educação voltado para deficientes visuais ficou mais latente.

No ano de 2012, passei a residir na capital baiana, onde tive contato direto com o Instituto de Cegos da Bahia – ICB, situado no bairro do Barbalho. O contato foi estabelecido em função do meu irmão, que é deficiente visual e, nesse ano, deu início ao seu tratamento na instituição. Foi a partir deste convívio que meu interesse foi aguçado a fazer algo por eles. Na universidade, o estímulo pela educação especial foi o ponto de partida para o desenvolvimento de pesquisas em conexão com o teatro.

No ICB comecei a discutir com professores e psicólogos sobre a possibilidade da realização de estágios no mesmo. Porém, motivos administrativos e de horários impossibilitaram essa parceria. Fui, então, indicada a outras associações e, assim, cheguei à Associação Baiana de Cegos- ABC.

Nos primeiros semestres, a busca por pesquisas e práticas artísticas foi orientada em torno de pessoas com deficiência visual. Dessa forma, procurei referências que discutissem sobre aulas teatrais para deficientes visuais e acabei conhecendo o professor Edielson de Deus, que tem uma pesquisa teórica e prática nesse campo. Antes da descoberta deste professor e pela dificuldade em encontrar métodos que me pudessem auxiliar, fui participante e pesquisadora do Grupo CELULA1 de Ensino, Pesquisa e Extensão do Programa PIBIC - UFBA, coordenado pela professora Celida Salume Mendonça, no qual os estudos referem-se à noção de materialidade no interior dos processos de criação em teatro.



A partir dessas indicações, comecei a experimentar jogos teatrais que dessem ênfase aos estudos sobre materialidade e contemplassem as individualidades de meus alunos. Neste percurso, algumas chaves foram importantes para acessar as portas do fazer. Sendo elas, os integrantes do Grupo Noz Cegos, o qual é dirigido pelo professor de teatro Edielson de Deus, composto por atores cegos e de baixa visão.

Em seguida, conheci associações e militantes que pensavam na acessibilidade da pessoa com deficiência visual, como, a Associação Baiana de Arte e Cultura Inclusiva – ABACI, que desenvolve ações de inclusão com a finalidade de facilitar a realização de projetos para cegos; o Instituto de Cego da Bahia e o Centro de Apoio Pedagógico ao deficiente – CAP. Após passar por esses espaços educacionais, apresentando meu projeto, eis que chego à Associação Baiana de Cegos – ABC. Um espaço formado por um grupo de pessoas com objetivos comuns, que se reúnem visando superar dificuldades e contribuir para o desenvolvimento dos associados.

Então, para enfatizar o rumo deste TCC, após identificar o local – a ABC – e com quem iria trabalhar, deficientes visuais de 16 a 59 anos, a pergunta que se tornou meu objeto e norte é: - Como trabalhar teatro com pessoas com deficiência visual? Para responder a esta questão, opto por utilizar a materialidade como princípio neste processo criativo, do fazer ao escrever, por ser de caráter prático e qualitativo, que se baseia na experiência e no aprendizado durante a experimentação. Pesquisadores como Celida Salume Mendonça, que investiga o uso da materialidade como eixo para criações cênicas e, Beatriz Cabral que trabalha a partir de pré-texto em suas criações, serão ambas autoras importantes ao longo desta pesquisa, já que, os estudos a partir da noção de pré-textos utilizado por Cabral, é uma via importante para a pesquisa sobre materialidade, como aponta os estudos no grupo CELULA.

Autores e artistas foram convidados para dialogar com as práticas realizadas na ABC, como as teorias de Maria Eugenia Viveiro Milet e Paulo Dourado descritas no Manual de Criatividades, O Fichário de Viola Spolin, Jogos para atores e não atores de Augusto Boal, Celida Salume Mendonça em sua tese de doutorado Fome de quê? Processos de Criação Teatral na Rede Pública de Ensino de Salvador, dentre outros. Além de jogos teatrais que experimentei durante a licenciatura em Teatro.

O objetivo dessa investigação foi apresentar às pessoas com deficiência visual diferentes convenções teatrais por meio de trabalhos criativos, como jogos de expressão corporal e improvisações, além de experimentar a materialidade como princípio para criação. Visando refletir sobre formas de inseri-los no teatro, para além de montagens.

Dessa forma, na ABC, o trabalho teatral foi realizado com pessoas cegas e com baixa visão, durante 62 horas. O planejamento criado baseava-se em referências teóricas e em características pensadas para este público, como será descrito nos próximos capítulos. Houve a mostra final, apresentada no Teatro Martim Gonçalves da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, no dia 07 de dezembro de 2014.

O TCC está dividido em três capítulos. No primeiro capítulo, há uma breve contextualização sobre o histórico da pessoa com deficiência; sobre a ABC, opto por apresentar a ABC, aqui no início, uma vez que ao longo dos demais capítulos tecerei experiências que foram oriundas deste contato com o espaço e os integrantes; e uma discussão sobre acessibilidade. No segundo, discute-se sobre o termo materialidade, além de dois exemplos de práticas teatrais com pessoas com deficiência visual, a fim de dialogar com esta pesquisa. E, por fim, o terceiro capítulo, no qual exponho o processo criativo com os meus alunos com deficiência visual e como foi desenvolvido metodologicamente.

Na conclusão, apresento algumas considerações sobre a experiência com o deficiente visual e o processo da escrita. Sem dúvida, inicia-se um caminho para novas possibilidades, com perguntas, ora com respostas, ora com reticências. Enfim, o TCC é um escrito a partir de inquietações, dúvidas, desejos, sonhos e vontades, a fim de estimular o encontro entre as artes cênicas e a deficiência visual, buscando, sobretudo, repensar o modelo da cena e de como é considerado o processo de arte educação nas escolas e universidades, quando se pensa na educação especial.

Boa leitura!

2. CONTEXTUALIZANDO: DOS ASPECTOS HISTÓRICOS À ABC
2.1 BREVE TRAJETÓRIA HISTÓRICA DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA

Ser deficiente é uma descoberta que eu fiz aos poucos. No primeiro momento, o impacto é extremamente forte, é uma mudança de vida, é como se você renascesse para uma nova existência, você é reduzido de um ser humano para uma pessoa deficiente, não é nem uma pessoa com deficiência... A nossa deficiência não nos limita, ela tem seus limites, mas depende de cada um, de cada personalidade. Então, a deficiência em si quando é bem trabalhada, respeitada e acionada de uma forma positiva ela mesmo com seus limites, não é um limitador. Basta o querer dessa pessoa e o apoio da família (Clarissa Cristina, 2015, entrevista).


Durante um longo período, as pessoas com deficiência eram tidas na sociedade como seres monstruosos e incapazes de conviver com os ditos normais. Eram consideradas, como relata Cristina, apenas uma pessoa deficiente. Para David Le Breton (2006), na essência, o homem não é um ser deficiente e sim um sujeito que tem uma deficiência. Diante deste estigma, o diferente era considerado anormal e posto em um cenário segregado que os condenava a representar uma ameaça aos padrões constituídos pela sociedade. Júlia Santana dos Santos Veras esclarece que,
Na Grécia antiga tanto nobres como plebeus possuíam permissão para sacrificarem seus filhos “defeituosos”. Em Esparta o comportamento de desprezo aos que não serviam para a sociedade era lançá-los ao mar ou em precipícios. Em Roma as crianças eram preparadas para a guerra desde o nascimento, assim, o corpo deveria ser perfeito, não apenas para a guerra, mas também para a arte, e se o indivíduo não tivesse valia para ambas, era também abandonado aguardando a morte. Porém no Egito e no México da Antiguidade as pessoas com deficiência possuíam um tratamento oposto, eram considerados intermediários entre Deus e os homens (VERAS, 2014, p. 9).

Historicamente esse registro ainda permanece tatuado. De acordo com a professora Adreana Dulcina Platt, esses sujeitos eram excluídos, abandonados, rejeitados, satanizados e até mesmo mortos. “Podemos descrever que o deficiente, nesse período, era considerado um indivíduo, por natureza, possesso por entidades malignas” (PLATT, 1999, p. 2).

Mas, na Idade Média com a chegada do cristianismo, ocorrem modificações diante da imagem dessas pessoas, que passaram a ocupar o lugar de feitos divinos, como afirma Pessotti:
Com o cristianismo, de fato, o deficiente ganha alma e, como tal, não pode ser eliminado ou abandonado sem atentar-se contra desígnios da divindade. Com a moral cristã torna-se inaceitável a prática espartana e clássica da “exposição” dos sub-humanos como forma de eliminação (PESSOTTI apud VERAS, 2014, p. 10).

Entretanto, mesmo esses indivíduos ganhando alma e o direito de não serem mais eliminados, as modificações caracterizavam-se como singelas e incapazes de desconstruir as visões arcaicas que foram elaboradas durante séculos. Garantia disso é o quanto ainda estamos presos a essa alienação e precisamos “brigar” para que haja mais recursos dignos e capazes de nutrir um mundo mais socialmente justo.

A Igreja tinha o poder de cuidar dessas pessoas e garantir sua sobrevivência, contudo, também podia castigá-las, respaldada pelo pressuposto de que eram punições do divino. A religiosidade deu outro significado para a vida desses indivíduos. Agora eles eram vistos como obras ou “punições” de Deus pelos “pecados” do mundo. A religião passou a manipular seus fieis e a educá-los a crer em seus novos dogmas. Dessa forma, esses sujeitos passaram de repudiados para seres que podiam servir como bobos da corte, com a responsabilidade de divertir os convidados das festas dos nobres,
[...] pressupondo uma visão contrastada, até contraditório do mundo: um mundo normal, geralmente reflexo do público espectador que julga e caçoa do mundo anormal, das personagens consideradas diferentes, originais, ridículas e, portanto, cômicas (PAVIS, 1999, p. 53).
De tal maneira estranha, estar fora do padrão é característica essencial da comédia. Os corpos limitados, defeituosos e anormais eram expostos agressivamente com a proposta de divertir o público. De acordo com Jean-Jacques Courtine, no livro História do Corpo,

[...] É então, com efeito, que atinge o ponto máximo a exibição do anormal, elemento central de um conjunto de dispositivos que fazem da exposição das diferenças, estranhezas, deformidades, enfermidades, mutilações, monstruosidades do corpo humano o suporte essencial de espetáculos onde se experimentam as primeiras formas da indústria moderna da diversão de massa (COURTINE, 2011, p. 256).


Portanto, podemos identificar que alguns estereótipos atuais são resquícios de modelos estabelecidos há séculos. De tal modo que, até os dias de hoje, um dos apoios de bastante relevância para a comédia continua sendo o “estranho”, claro que em outros padrões, com outros e novos objetivos, mas de forma similar. Atualmente, a publicidade utiliza-se desses sujeitos despadronizados para vender seus produtos em massa, gerando um mercado que se mantém com a exposição da mulher barbada, anões, sujeitos acima do peso entre outros corpos ridicularizados pelos padrões determinados.

Júlia Veras, em sua monografia História, Educação e Artes Cênicas, Um olhar sensível-criativo sobre a trajetória da pessoa com deficiência, diz que “Os deficientes que não podiam trabalhar não eram mais assassinados, mas viviam como pedintes, dependendo da caridade alheia, integrados à pobreza” (VERAS, 2014, p. 10). Alguns desses sujeitos que não “serviam” para os trabalhos cômicos ocupavam esse triste lugar. Determinadas pessoas continuam com a mesma ideia de que deficiente na rua é sinônimo de criaturas pedintes.

Sem dúvida os deficientes hoje ocupam as ruas, mas não para esmolarem, mas sim, defenderem seus direitos e, de certa maneira, batalharem por mais respeito e menos preconceito. Mas essas ações também são vestígios de um passado, que aparentemente deveria ser remoto e, entretanto, é tão atual, visto que ainda é possível perceber como algumas pessoas com deficiência se acham invisíveis e inferiores.

Maria Aparecida Gugel, no artigo A pessoa com deficiência e sua relação com a história da humanidade, elucida o marco que foi a passagem da Idade Média de um período de ignorância para o nascer de novas ideias.

A Idade Moderna é marcada pela criação de instituições com fins assistencialistas que incentivavam os estudos das causas orgânicas das deficiências. O pesquisador Álvaro dos Santos Maciel diz que “Havia assistência em ortopedia para os mutilados das guerras e para as pessoas surdas e cegas” (MACIEL, 2010, p. 23). Essas ações geravam cada vez mais segregação e vergonha, já que algumas famílias optavam por esconder seus filhos em vez de ajudá-los. Segundo Marcela Virginia Duarte Sega, em seu artigo, Educação Inclusiva, “Pessoas com deficiência eram retiradas de seus locais de nascimento e segregadas em conventos, asilos, hospitais psiquiátricos e escolas especiais. A institucionalização vigorou aproximadamente por oito séculos, durante parte da Idade Média até o início do século XX” (SEGA, s/ano, p. 2-3) 2. De acordo com o escritor Felipe Henrique Monteiro Oliveira, a aceitação dos diferentes corpos na sociedade deu-se a partir das transformações de soldados que iam para guerras “normais” e voltavam com alguma deficiência, “[...] a partir das mutações da sensibilidade que deram a estes indivíduos o caráter de serem indubitavelmente humanos, diferente do que acontecia em épocas precedentes” (OLIVEIRA, 2013, p. 45).

Entre o final do período moderno e meados do contemporâneo, percebe-se o início de novas modificações, de modo que o assistencialismo tornou-se inutilizado, a fim de que centros especializados fossem criados para educar essas pessoas com deficiência. Com essas iniciativas, pessoas sem deficiência eram formadas profissionalmente para trabalhar com esses sujeitos deficientes, com o intuito de torná-los “normais” e produtivos para uma sociedade cuja meta é a produção. “Paralelo ao conceito de normalização desenvolve-se a integração, que propõe a modificação da pessoa com necessidades especiais, para que esta se ajuste às regras, valores e costumes coletivos e com o propósito de inserção do deficiente na sociedade” (SEGA, s/ano, p. 3-4). Concretizando-se assim por meio de escolas especiais, centros de reabilitação e assistências. Nesta etapa, “os monstros seriam também humanos” (TEIXEIRA, 2010, p. 52).

A defesa e os movimentos pelos direitos igualitários para qualquer cidadão, seja ele deficiente ou não, surgem apoiados no ideal de que o mundo é formado por pessoas singulares, com características variadas. Aparecem também discussões sobre acessibilidade, a fim de que o desenvolvimento de qualquer ser humano seja possível, já vinham discutidas e até colocadas em leis, desde a Constituição. Entretanto é no que essas atitudes foram se desenvolvendo, ganhando mais força, novos acontecimentos afloraram e trouxeram marcos importantes para esse período.

Foram estabelecidos e assegurados direitos que abriram novas oportunidades, mesmo inferiores ao que de fato é necessário, dando início à desagregação e ao acesso a escolas formais. Entretanto, estas ainda mantiveram suas estruturas antigas, sem as devidas adaptações para atender aos novos integrantes. Esse período marca o mundo com suas inovações e no Brasil não é diferente. Nessa ocasião, foram inaugurados espaços educacionais que visavam à educação dos deficientes visuais e surdos-mudos. Vale a pena deixar claro que essas inaugurações foram realizadas na época do Império em que:


[...] Havia no Brasil apenas duas escolas que atendiam pessoas com deficiência. Uma junto ao Hospital Juliano Moreira, fundada em 1874, em Salvador (BA) e outra fundada em 1887, chamada Escola México, no Rio de Janeiro (RJ). A primeira atendia somente os deficientes e a segunda, de ensino regular, atendia também os deficientes visuais e físicos. Ambas eram escolas públicas (SEGA, s/ano, p. 5).

Era uma fase de avanços educacionais, contudo, apenas para determinados deficientes. Quando é fundado no Brasil o primeiro centro para deficiente, o Instituto Imperial dos Meninos Cegos no Rio de Janeiro (posteriormente, em 1891, é denominado Instituto Benjamin Constant) os progressos no atendimento aos deficientes crescem, pois são estabelecidas prioridades relacionadas à área da educação com o objetivo proposto pelo Ministério da Educação – MEC.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) Nº 9.394/96 orienta a inclusão dos alunos com deficiência na rede regular e a Lei n.º 7.853/89 assegura à essas pessoas a criação de escolas especiais na rede pública e privada, no sistema educacional e a gratuidade da educação especial em locais público. Sendo assim, foram organizadas formações de professores para o atendimento educacional especializado em escolas formais e especiais, onde o currículo e métodos deveriam ser adaptados para atender a necessidade desses sujeitos com deficiência.

Em 1990, como menciona Marcela Virginia Duarte Sega, surgem trabalhos científicos acerca de determinadas deficiências, possibilitando atendimentos para essas pessoas. A autora elucida também que, na década de noventa, no Brasil, começam, inicialmente, movimentos em apoio às pessoas com deficiência física e ações que contribuíram para o desenvolvimento de uma educação que visava o avanço de estudos e práticas para/com esses indivíduos. Essas ações fizeram do país pioneiro na América Latina, por propor a criação desses institutos. “No século XIX tiveram início as primeiras ações para atender as pessoas com deficiência, quando o País dava seus primeiros passos após a independência, forjava sua condição de Nação e esboçava as linhas de sua identidade cultural” (GLEBER, 2010, p. 22).

No Brasil, além dos institutos para cegos e surdos-mudos, surgiram outras organizações e documentos que tiveram e ainda têm o objetivo de garantir direitos de igualdade e liberdade, como a Associação de Assistência à Criança Deficiente - AACD em 1950, que mesmo fundada nessa data, só passou a atender o público em 1963; o Instituto Baiano de Reabilitação (IBR) de Salvador fundado em 1956; a Associação Fluminense de Reabilitação (AFR, de Niterói, em 1958); a declaração Universal dos Direitos Humanos, instituída no ano de 1948, além de outras ao longo dos anos.

Apesar de existirem novos institutos e documentos que questionam o padrão social excludente, apoiados no princípio de que todas as pessoas devem ter os mesmos direitos e que a sociedade deve adaptar-se para atender às necessidades de qualquer cidadão, é possível perceber que, mesmo com esses direitos reconhecidos, as atuais sociedades não estão adequadas o suficiente para mudarem o cenário excludente e marginalizado. As pessoas com deficiência continuam sendo vistas com desigualdade. No entanto, com essas organizações davam-se oportunidades, mesmo que modestas, para eles conviverem entre si, entre seus semelhantes. Tais instituições permitiram também que tivessem, ainda que maquiada, uma identidade, um grupo social.

Outras medidas, ao longo dos anos, foram tomadas e contribuíram para que os avanços acontecessem, como exemplo, as ações mundiais para as pessoas com deficiência – ONU em 1982; normas uniformes da ONU, sobre a igualdade de oportunidade para as pessoas descapacitadas, em 1993; em 1994, esteve assumida a Declaração de Salamanca – marco de ação sobre as necessidades educativas especiais da UNESCO, que entra na história mundial pela introdução do conceito de Necessidades Educativas Especiais (NEE).

A Declaração de Salamanca aborda os princípios políticos e as práticas desenvolvidas na área das pessoas com deficiência. A demanda fundamental sobre a qual esta Declaração de Salamanca pondera é a acessibilidade de todas aquelas pessoas com deficiência ao ensino formal. Propõem-se modificações apenas nos métodos de ensino,
[...] ou seja, uma metodologia dirigida a facilitar a aprendizagem de alunos que apresentam alguma característica, seja biológica, psicológica e/ou social, que provoca neles alguma limitação para aprender em condições ditas “normais”, quer dizer, com uma metodologia de ensino comum aos que não apresentam estas características (RODRIGUEZ, 2015, s/p ).

Portanto, como o professor Felix Marcial Diaz Rodriguez diz, os princípios da Educação Especial estão em manter a relação entre as limitações e potencialidades, em encontrar os melhores métodos para facilitar a aprendizagem e seu desenvolvimento.

Podemos, através de maior força nas ações políticas e educacionais, cultivar a convivência sem preconceito ou discriminação com as diversidades. Sem deixar que ocorra a generalização, reconheço e acredito nas mudanças que aconteceram. Estas, porém, são ínfimas diante do volume de carência. É necessário menos indiferença, mais apoios, mais representantes, mais cidades pensadas e arquitetadas tanto quanto para deficiente ou “normais”. Necessitamos de mais educação e acessibilidade, de professores e escolas capazes e disponíveis para receber qualquer ser humano. É preciso mais do que nunca que os deficientes também ocupem seus lugares de direito. Pistas táteis e rampas não são suficientes mesmo que fundamentais à locomoção. Eles precisam ainda mais de acessibilidade nas suas diversas dimensões.

Em 2008, o Ministério de Educação estabeleceu a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva que visa como ponto principal, um processo inclusivo, onde os estudantes com deficiência possa ter acesso às escolas do ensino regular sem serem discriminados ou impedidos de frequentarem, uma vez que, em muitas situações esses alunos são destinados às escolas especiais. De acordo com a Política Nacional de Educação Especial os alunos devem frequentar o ensino regular e participar de atividades complementares em outros turnos, a fim de ampliar a autonomia do aluno. De acordo com a Política Nacional,

 

As atividades desenvolvidas no atendimento educacional especializado diferenciam-se daquelas realizadas na sala de aula comum, não sendo substitutivas à escolarização. Esse atendimento complementa e/ou suplementa a formação dos alunos com vistas à autonomia e independência na escola e fora dela (BRASIL, 2008, p. 16). 



 

Assim, é necessário uma política pública que busque o acesso à educação sem que haja a permanência de “políticas especiais”, isto é, sem a necessidade de escolas formais com salas específicas para pessoas com deficiência, pois, como reafirma o documento do Ministério da Educação,

 

a partir do processo de democratização da educação se evidencia o paradoxo inclusão/exclusão, quando os sistemas de ensino universalizam o acesso, mas continuam excluindo indivíduos e grupos considerados fora dos padrões homogeneizadores da escola. Assim, sob formas distintas, a exclusão tem apresentado características comuns nos processos de segregação e integração que pressupõem a seleção, naturalizando o fracasso escolar (BRASIL, 2008, p. 6).



 

Essas ações tornaram uma maneira de fazer a escola um espaço educacional, onde todos podem aprender juntos e com objetivos comuns entre todos os alunos. Pensar em escolas que possuem educação infantil até o ensino médio, contribui para o envolvimento e adaptação dos alunos em diferentes séries e com diferentes idades.  Por exemplo, quando se há desde a educação infantil, torna-se importante para as fases de formação desse sujeito, aprendendo sobre suas fases de desenvolvimento. De acordo com o documento da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, a educação infantil é uma importante etapa para trabalhar o lúdico das crianças, pois “o acesso às formas diferenciadas de comunicação, a riqueza de estímulos nos aspectos físicos, emocionais, cognitivos, psicomotores e sociais e a convivência com as diferenças favorecem as relações interpessoais, o respeito e a valorização da criança” (BRASIL, 2008, p. 16). Porém, isso tem caminhado com muita dificuldade, mesmo com essa política, ainda percebemos que o processo de acessibilidade e inclusão ainda é incipiente.  O sistema de ensino ainda não está organizado o suficiente para atender todas as demandas que essa política objetiva.  As escolas em geral ainda não disponibilizam instrutor, tradutor/intérprete de Libras e guia intérprete, bem como, monitores e assistentes para contribuir com os professores em sala de aula, além de outros apoios para auxiliar no cotidiano escolar.  

 
2.2 CONTEXTUALIZANDO A ASSOCIAÇÃO BAIANA DE CEGOS- ABC
Neste capítulo, viso contextualizar a Associação Baiana de Cegos – ABC, localizada na Rua Mesquita dos Barris, 40, Barris, Salvador-Bahia, próxima à Estação da Lapa. É uma instituição que existe para promover a acessibilidade social, educacional e cultural ao sujeito com deficiência visual através de cursos preparatórios, como o de informática ou fabricação de produtos de limpeza. Desta forma, a associação surge com ideais políticos, cujo objetivo é contribuir com o acesso dessas pessoas à sociedade, oferecendo cursos para suscitar o interesse da pessoa com deficiência em relação aos seus direitos de acessibilidade, bem como, os trabalhistas.

A ABC foi fundada em 14 de setembro de 1985 e, ao longo dos seus trintas anos, tem como uma de suas ações mais importantes o ato de representar as pessoas com deficiência. É uma associação sem fins lucrativos e sem nenhum convênio governamental, sobrevivendo até hoje através de doações de pessoas e empresas, além de possuir uma abrangência e interesse em dialogar com propostas que comunguem com seus objetivos.

Esse instituto surgiu a partir da inquietação de um grupo de deficientes visuais perante a falta de inclusão social, tendo iniciado suas atividades em residências. Reuniam-se também no setor de Braille da Biblioteca Central de Salvador. Por meio de doações, atualmente, têm a sede localizada no bairro dos Barris, onde podem contar com um espaço próprio e direcionado para o desenvolvimento dessa associação.

Durantes esses anos de atividade, percebe-se o quanto a ABC tem sido importante politicamente, pois discute questões a respeito do deficiente visual; age de acordo com suas urgências, de modo que suas inquietações e discussões tenham respaldo face aos direitos dos deficientes.

Como parte de suas atividades, a ABC propõe lazer e entretenimento, além de cursos para qualificação da mão de obra e palestras que discutem os direitos trabalhistas do deficiente. Além de cursos como informática, massoterapia, panificação, telemarketing, eletricidade, confecção de perfumes e material de limpeza, entre outros. A ABC viabiliza condições para o mercado de trabalho, buscando amenizar situações de discriminação e preconceito.

Em virtude da importância da referida associação, algumas entrevistas foram realizadas por mim com funcionários, colaboradores e associados. Sendo assim, pontos positivos e negativos, sugestões e outros encaminhamentos foram apresentados. Para melhor compreendermos apresento falas que foram importantes para contextualizar a ABC:

A associação é um instrumento de representação do deficiente visual no nosso estado da Bahia, um órgão que intervém e acompanha o deficiente visual (Everaldo Neris da Silva, atual presidente da ABC, 2015, entrevista)3.

Os poderes públicos a partir desses tipos de associações e movimentos passam a dar mais atenção ao deficiente. A imprensa nos dão visibilidade e faz com que sejamos vistos e vistos somos notados. ABC é um espaço plural no que tange as atividades (Antônio Andrade, atual vice-presidente da ABC, 2015, entrevista)4.


Diante da representatividade política, pode-se dizer que algumas conquistas que foram angariadas, como salienta Antônio de Andrade, tiveram apoio direto da ABC. A Lei nº 12.575, sancionada no dia 26 de abril de 2012, pelo Governador Jaques Wagner, garante o benefício do passe intermunicipal às pessoas com deficiência no sistema de transporte coletivo intermunicipal, nos modais rodoviário, ferroviário, aquaviário e metroviário, bem como o cumprimento das cotas por parte das empresas. Estes são pontos que a ABC sempre buscou valorizar na medida em que essa representatividade ganhou legitimidade e passou a compor as reuniões em congressos e em seminários. Sem dúvida a associação tornou-se uma instituição que apresenta os direitos civis de um cidadão com deficiência.

Para Arlenilda Santana de Carvalho5, uma das associadas, diz que,

[...] a ABC para mim, apesar de ter sido uma das primeiras associadas, quando ainda não era aqui nos Barris sempre foi como uma casa. É um lugar onde sou acolhida, onde posso fazer as atividades que me são oferecidas e conversar com os amigos, colocar os papos em dia (Arlenilda Santana de Carvalho, 2015, entrevista cf. nota 3).
Em relação à acessibilidade local onde se encontra a ABC, continua Arlenilda, “eu não sei meus colegas, mas sinceramente, eu não acho o acesso legal”. Essa observação trazida pela deficiente visual refere-se ao fato da ABC estar localizada em uma ladeira e a pista tátil não estar em condições adequadas. O desejo da maioria dos associados é que a sede pudesse estar em um local de melhor acessibilidade para o deficiente visual. A despeito da falta de atenção dos poderes públicos, a ABC funciona no intuito de somar e facilitar a “vida” do cego. Para Arlenilda “a ABC veio mostrar que o deficiente visual é capaz de ser inserido no mercado de trabalho, nas artes e em qualquer coisa que ele queira, afinal para nós deficientes visuais o céu é o limite” (2015, entrevista cf. nota 3).

Em uma de suas falas, Arlenilda discute tanto a importância da ABC quanto o descaso com o profissional cego, já que, em algumas situações, como salienta a associada, a instituição opta por contratar profissionais videntes, em vez de empregar os próprios cegos, que, para ela, possuem condições para exercer tais funções. Ela afirma: “Eu acho que deveria haver confiança com o associado, pois existem associados capazes de serem funcionários da sede, associados que estudaram, como é meu caso, associados com capacidade literária suficiente para isso”. O que se percebe é que, nesse caso, há um discurso contraditório em lutar por um direito coletivo de empregar o sujeito com deficiência no mercado de trabalho e repetir este erro na própria ABC. Ela ainda salienta que “claro que devemos ter uma assistente social, uma recepcionista com visão, mas existem outras funções que o deficiente pode ter, mas não nos é dada a confiança, não é dada a devida oportunidade”. Isto é perceber que o mercado de trabalho deve ser para todos e com os mesmos direitos que qualquer outro profissional, seja com visão ou não.

Percebe-se que, apesar de identificar os bons feitos da ABC, há outro lado contraditório, pelo qual os próprios deficientes se sentem magoados: para acontecer melhorias é necessário que toda a sociedade esteja ciente e interessada em contribuir, desde as empresas aos transeuntes de todos os dias. Maria Conceição Mendes do Carmo, uma das colaboradoras, relata que a acessibilidade até chegar à ABC não é apropriada, pois “as pessoas botam lixo na pista e não facilitam nada”. São atividades como essas que a sociedade precisa ainda ser educada para compreender a amplitude e a importância do espaço coletivo.

Para Clarissa Cristina, ex-diretora da associação, a ABC parou no tempo, pois ainda continua com uma ideia de assistencialismo, enquanto a pessoa com deficiência clama por direitos humanos e por políticas que sejam pensadas, instauradas e aplicadas. O que se percebe é uma ação exaustiva de alguns, enquanto políticos e demais autoridades agem por promessas, restringindo-se só ao discurso, em sua maioria.

Muitos problemas são referentes à estrutura, como as pistas táteis para chegar a ABC e a localidade da mesma. Para Cristina é o momento da diretoria da ABC perceber e entender a associação como um polo, como algo maior, mas para isso são necessárias outras perspectivas. Na fala de Cristina “falta formação política para que o movimento se fortaleça”. Por exemplo, o problema não está apenas na pista tátil, mas nas sinaleiras de trânsito. Próximo ao ABC há uma sinaleira sonora “que está quebrada há mais de quinze anos e a associação não faz absolutamente nada para recuperar” (fala de Cristina). Outra necessidade é a de identificar outros pontos de parada de ônibus, exigindo recursos sonoros para auxiliar os deficientes e, no entanto, o que se percebe é uma passividade por parte da ABC para promover essas ações, como afirma Cristina em entrevista.

A Associação Baiana de Cegos pode ter inúmeras falhas na estrutura e na organização entre os associados, entretanto é também um lugar de aprendizado e importante eixo político para a sociedade cega da Bahia. Apesar da necessidade de uma estrutura física mais adequada para a prática do teatro, o atual presidente, Everaldo, é um apoiador e busca meios para conseguir fazer com que essa instituição tenha uma representação importante no contexto da Bahia. Por isso, a ABC é uma associação que acredita em propostas como a de fazer teatro, defendendo que arte é um meio importante para dialogar, questionar e discutir as necessidades que permeiam o lugar de ocupação desses sujeitos. Em vista disso, é que a proposta de realizar as oficinas de teatro com os deficientes visuais foi de suma importância para a parceria com a associação.


2.3 DISCUTINDO SOBRE ACESSIBILIDADE
A Lei Federal de acessibilidade, n° 10.098, criada em 2000, permite o acesso de pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida a locais públicos. A lei os abrange com intuito de reduzir barreiras que os impeçam de se locomover, bem como aumentar a segurança. Outras leis que contemplam pessoas com deficiência como os cegos estão contempladas nas normas

[...] Nº 3.956/2001, fruto da Convenção da Guatemala, promulga a Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência;

-Lei nº 11.126, de 27 de junho de 2005, que dispõe sobre o direito da pessoa com deficiência visual de ingressar e permanecer em ambientes de uso coletivo acompanhada de cão-guia (MONTEIRO, 2012, p. 7).

Essas leis estabelecem normas e critérios básicos para o desenvolvimento do deficiente na sociedade em que estão inseridos como cidadão, dando-lhes direitos de circularem com segurança e promovendo a eliminação de barreiras nos espaços públicos e ambientes estruturados na medida em que cumpram com as novas regras. Direcionando a pessoa com deficiência visual é necessária

[...] a implantação de dispositivos sonoros nos semáforos para orientação na travessia de ruas e avenidas com trânsito intenso (art. 9º), além de especificar que os projetos e traçados dos elementos de urbanização públicos e privados de uso da comunidade - itinerário e passagens de pedestres – sigam os parâmetros estabelecidos pelas normas técnicas de acessibilidade da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT (art. 5º). As especificações técnicas expressas nesta norma e de substancial importância para a mobilidade dos cegos nos espaços públicos são as que tratam da comunicação e sinalização, dos acessos e circulação e do mobiliário, pois, respectivamente, regulamentam o uso dos pisos táteis, especificam as condições e características dos passeios públicos / calçadas e estabelecem parâmetros para a sinalização sonora nos semáforos. (NBR 9050, 2004) (MONTEIRO, 2012, p 7).

Os dispositivos sonoros nos semáforos das vias públicas são importantes para sinalizarem ao deficiente visual o momento em que o semáforo está aberto e assim, permitir ao cego, mais autonomia, suavizando a necessidade de um vidente para sinalizar o momento de passagem. Conforme relatado acima nas entrevistas, Salvador não possui nenhuma sinaleira com esses dispositivos funcionando, provando assim que acessibilidade para cegos nos espaços públicos da cidade ainda é algo complicado e defasado, de modo que a vida urbana não oferece a devida segurança e autonomia a esses sujeitos. Mesmo que na capital baiana não seja comum encontrar cegos com cão-guia, por lei, os locais públicos como restaurantes, ônibus, entre outros estabelecimentos são obrigados a permitir o acesso e a permanência desses animais. É necessário também recursos de acessibilidade comunicacional, no caso das pessoas com deficiência visual, a princípio, a audiodescrição.

As pistas táteis funcionam como um dos auxílios para guiar os deficientes nas calçadas, sinalizando as entradas e saídas de garagem e de estabelecimentos. No entanto, muitas vezes são colocadas de forma inadequada, dificultando a locomoção do cego pelos espaços públicos, indo contra as leis estabelecidas. De acordo com Debora Diniz em seu livro, O Que É Deficiência, “ser cego é apenas uma das muitas formas corporais de estar no mundo. Mas, como qualquer estilo de vida, um cego necessita de condições sócias favoráveis para levar adiante seu modo de viver a vida”. (DINIZ, 2007, p. 7-8). Portanto, não adianta ter assegurado por lei inúmeros direitos ao deficiente e não serem devidamente atendidos.

Entre a associação ABC e a estação de ônibus Lapa havia um percurso feito constantemente, após o término das aulas, pela maioria dos alunos conduzidos por mim. Foi ao longo deste período que pude perceber o quanto, de modo geral, a cidade não está devidamente apta para receber essas pessoas e o quanto aquelas ruas não ofereciam acessibilidade e nem permitiam o acesso tranquilo de pessoas cegas ou com mobilidade reduzida, muito menos segurança. As barreiras não são reduzidas e isso impede a locomoção destes sujeitos, indo de encontro à “utopia” que a Lei Federal n° 10.098 prega. E como menciona Janete Monteiro:

Seguindo a tendência mundial na questão da inclusão social e dos direitos das pessoas com deficiência – física, mental ou sensorial – o Brasil tem avançado imensamente na elaboração de documentos legais e na implantação de políticas públicas de inclusão, na tentativa de oferecer melhores condições de inserção social desses sujeitos na nossa sociedade. Entretanto, o que se observa é que as tentativas são sutis, evasivas, ineficientes e em muitos casos inexistentes (MONTEIRO, 2012, p 14).

Deste modo, é perceptível que após anos da criação da lei de acessibilidade ao deficiente e das normas para instalações de meios, como as pistas táteis, esses sujeitos ainda vivem inúmeros transtornos e sem a devida acessibilidade, segurança e autonomia pelos espaços de sua cidade, como menciona Janete Monteiro, a acessibilidade é uma caminhada longa, árdua e percorrida a passos lentos.

Ao se observar a foto abaixo, percebemos o quanto a caminhada até a Associação Baiana de Cegos para os deficientes visuais ainda é difícil, com essas ruas esburacadas, sem nivelamento, muitas ladeiras e pistas táteis mal colocadas ou destruídas, condições que dificultam a passagem e ofendem a integridade física dessas pessoas. Refletindo, assim, em um lugar despreparado para uma vida com qualidade desses sujeitos, que continuam à margem.




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